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OS SATÉLITES DO NOSSO (DES)CONTENTAMENTO

Posted on October 23, 2026 by Admin

Zolana João transformou a liderança do Programa Espacial Nacional de Angola numa plataforma para ampliar a presença do país na economia espacial, tendo no lançamento do ANGOSAT-2 um dos marcos centrais do seu percurso. Se não se perdesse no caminho…

Responsável pelo GGPEN desde 2014, o engenheiro tem procurado converter a infra-estrutura de satélites em instrumentos de conectividade, observação da Terra, inteligência artificial geoespacial e desenvolvimento económico.

O seu trabalho ultrapassa as fronteiras nacionais. Actualmente, preside ao Comité Directivo do Satélite Compartilhado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), iniciativa que reúne 16 países em torno do projecto de um satélite de propriedade conjunta. Foi também vice-presidente da AP-41, na Região D da Organização Internacional de Telecomunicações por Satélite (ITSO), participando em processos de coordenação regulatória e na definição do papel das comunicações por satélite nos serviços públicos e na conectividade digital.

Sob a sua liderança, Angola tem procurado alargar o aproveitamento económico das tecnologias espaciais. Entre as iniciativas está o ANGEO-1, projecto do primeiro satélite angolano de observação da Terra de alto desempenho, concebido para disponibilizar imagens e dados geoespaciais destinados ao acompanhamento ambiental, à resposta a desastres e ao planeamento do desenvolvimento nacional. O Centro de Geodados de Angola (GEDAE), por sua vez, integra esta aposta na transformação de dados em ferramentas de apoio à decisão.

A ambição é fazer com que estes recursos ultrapassem o domínio técnico e produzam resultados concretos. Projectos associados ao ANGOSAT-2 e ao Connecta Angola procuram ampliar o acesso à conectividade, incluindo em comunidades rurais, enquanto as aplicações de observação da Terra podem apoiar o planeamento agrícola e de infra-estruturas, a gestão de riscos e a resposta às alterações climáticas. O desafio passa por integrar estas capacidades nos processos de decisão do Estado e criar oportunidades para a sua utilização pelo sector privado.

A dimensão internacional constitui outro eixo da sua actuação. Investigador afiliado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Zolana João participa em iniciativas que exploram a utilização responsável das tecnologias espaciais e da inteligência artificial, incluindo um sistema de resposta à seca em Angola financiado pela NASA. Também intervém em debates sobre a exploração espacial, a economia lunar e a participação africana na definição das regras que irão orientar este sector.

Para Zolana João, a presença de Angola na economia espacial não se esgota no lançamento de satélites; depende da capacidade de converter tecnologia, conhecimento e cooperação internacional em soluções úteis para as populações e para o desenvolvimento do continente.

No plano multilateral, representou África no Comité das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Exterior (COPUOS), contribuindo para discussões sobre a governação espacial e a criação da Agência Espacial Africana. Participa igualmente nas negociações internacionais sobre a atribuição do espectro de radiofrequências, um recurso estratégico para as comunicações por satélite, no quadro da Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2027.

O percurso tem também uma dimensão social. Tendo passado da infância marcada pela pobreza à liderança do programa espacial angolano, Zolana João defende a formação científica e tecnológica como instrumento de transformação. Sob a sua direcção, Angola (politicamente nas mãos do MPLA há 50 anos) tem formado novos engenheiros espaciais, alguns distinguidos entre os dez melhores profissionais africanos do sector com menos de 30 anos. É ainda orador em universidades, incluindo o MIT e a Universidade Internacional do Espaço, e autor de trabalhos sobre estratégia espacial e aplicações de satélites.

Doutorado em Engenharia pela Universidade George Washington, nos Estados Unidos, possui também mestrados em Engenharia de Telecomunicações, pela Universidade de Tecnologia de Tshwane, na África do Sul, e em Engenharia Electrónica e de Telecomunicações, pela ESIEE Paris, em França.

Entre os reconhecimentos recebidos figuram a Medalha “Espaço sem Fronteiras”, atribuída pela ROSCOSMOS em 2022, na sequência do lançamento do ANGOSAT-2, e a selecção de um dos seus projectos de inteligência artificial pelo Centro Internacional de Investigação em Inteligência Artificial da UNESCO entre 20 iniciativas globais associadas aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Em 2022, participou também como orador convidado na Cimeira de Líderes EUA-África, organizada pela Casa Branca.

O seu desafio central é transformar a capacidade espacial em valor económico e social: reforçar a conectividade, melhorar a gestão dos recursos naturais, apoiar a resiliência climática e abrir espaço à inovação africana num sector cada vez mais estratégico.

Para Zolana João, a presença de Angola na economia espacial não se esgota no lançamento de satélites; depende da capacidade de converter tecnologia, conhecimento e cooperação internacional em soluções úteis para as populações e para o desenvolvimento do continente.

Falta (mesmo) quase para… pouco!

Em Janeiro de 2021, Zolana João afirmou que o Angosat-2, em construção pela AirBus Defence and Space, entraria em órbita dentro de 17 meses.

O responsável prestou esta informação quando falava sobre o estado do Angosat-2, durante o webinar sobre “Angosat-2, benefícios económicos para a melhoria da vida das populações”, na “sexta-feira das TICs”, realizada pelo Ministério das Telecomunicações, Tecnologia de Informação e Comunicação Social.

De acordo com o director, tendo em conta a complexidade das métricas de avaliação da construção deste tipo de aparelhos, o Angosat-2 estava feito acima dos 60 por cento e tinha previsão de lançamento no primeiro semestre de 2022.

Para Zolana João, o Angosat-2 teria algumas inovações e correcções dos erros cometidos no Angosat-1, nomeadamente teria uma transmissão sete vezes mais do que o primeiro, o Angosat-1 tinha 16 transponders na banda C e seis na banda KU, já o Angosat-2 terá seis transponders na banda C, 24 na banda KU e como novidade será acrescentado um transponder na banda KA.

Com o peso total de duas toneladas o Angosat-2 seria ainda um satélite de Alta Taxa de Transmissão (HTS) e disponibilizará 13 gigabytes em cada região iluminada (zonas de alcance do sinal do satélite).

O satélite seria baseado na plataforma Eurostar-3000 e o tempo de vida útil seria de 15 anos. A construção deste novo satélite não trouxe custo para o Estado angolano, pelo facto do contrato de mais de 300 milhões de dólares, rubricado com a parte russa, para construção do Angosat-1, ter acautelado os interesses de Angola, em caso de desaparecimento ou destruição do satélite.

Arroz, feijão, peixe e fuba

A empresa russa Energia Space Rocket anunciou no dia 8 de Maio de 2020 que, por decisão do Governo do MPLA, iria fornecer toneladas de alimentos aos milhões de pobres de Angola. Será? Não, não era. A empresa anunciou sim o desenvolvimento do Angosat-2.

De acordo com a agência de notícias russa TASS, que citava o relatório sobre as contas de 2019, a Energia Space Rocket anunciou que “durante o plano de trabalho, o cliente estrangeiro apresentou uma exigência para que o trabalho de criação e lançamento do satélite Angosat-2 fosse transferido para a Reshetnev”.

Segundo o documento citado pela agência de notícias russa, a Reshetnev iria também assumir todos os direitos e obrigações relativas à colocação do satélite em órbita, recebendo também da Energia Space Rocket os fundos alocados mas ainda por gastar.

“A administração da Energia Space Rocket também tomou nota do facto de que o Grupo vai adicionalmente colocar 7,8 mil milhões de rublos [um pouco menos de 100 milhões de euros] para outras despesas em 2020 em resultado desta transferência do contrato”, lê-se ainda na declaração financeira.

O satélite de telecomunicações Angosat-1 foi lançado em Dezembro de 2017, tendo sido perdido (tal como Angola se perdeu em 1975) um dia depois, na sequência da sua separação do foguetão que o lançou em órbita, e foram várias as tentativas para retomar o contacto com o satélite até meio de Janeiro de 2018, enquanto ficou na área de visibilidade directa a partir do território russo.

As autoridades angolanas decidiram então lançar o Angosat-2 em vez de continuar a tentar retomar o contacto com o Angosat-1. Mais. Se for preciso o Governo de João Lourenço arranjará dinheiro (que diz não ter para dar de comer a quem tem fome) para o Angosat-3,4,5 e por aí fora.

O primeiro satélite angolano, construído por um consórcio russo, sob a égide do Presidente José Eduardo dos Santos, que também nesta matéria vai ficar, tal como o seu escolhido João Lourenço, nos anais de actividade espacial do país e do mundo, deveria ter sido (re)colocado em órbita em Novembro de 2016, segundo as sempre proteladas garantias dadas pelo então Secretário do Estado das Telecomunicações, o maior especialista do MPLA, Aristides Safeca.

O governante precisou em 2014 que a construção do satélite deveria estar concluída em dois anos, decorrendo “dentro dos prazos estabelecidos”, para depois ser lançado no espaço. De facto, é de enaltecer tal precisão. Não faria sentido lançar o satélite antes de ele estar concluído. Mas, reconheça-se, com o regime do MPLA tudo é possível.

A construção do satélite, avaliada em 2014 em 37 mil milhões de kwanzas (294 milhões de euros), decorreria em Angola, a cargo de um consórcio russo liderado pela RSC envolvendo também um financiamento russo, conforme anunciado em 2013.

O atraso no financiamento do projecto fez derrapar o lançamento do Angosat, que esteve previsto para 2015, depois para 2017 e regressou depois a 2016, passando depois para… uma data qualquer.

O executivo previa, com a entrada em funcionamento deste satélite, que o país passaria a fornecer serviços de suporte às telecomunicações electrónicas, incluindo a prestação de banda larga e de televisão.

Ao contrário do que pensavam os angolanos, não vai trazer comida, nem medicamentos, nem casas, nem escolas, nem respeito pelos direitos humanos. Importa, contudo, compreender que há prioridades bem mais relevantes. E o satélite é uma delas.

O Angosat terá, teria, era para ter um período de vida de 15 anos e 22 ‘transponders’, dispositivos de comunicação electrónica. Incluiria a construção de duas estações de rastreio, em Angola e na Rússia.

Para o então responsável pela pasta das telecomunicações no Governo, o génio Aristides Safeca, o Angosat marcava a entrada do país “numa nova era das telecomunicações, o que pressupõe a condução de um programa espacial que inclua, futuramente, o lançamento de satélites subsequentes”.

Recorde-se que foi no Conselho de Ministros de 25 de Junho de 2008 que foi aprovado o projecto de criação do satélite “Angosat”.

Em comunicado, o Conselho de Ministros referiu nesse dia que foram aprovadas as minutas do contrato a celebrar entre o Ministério dos Correios e Telecomunicações de Angola e o consórcio russo liderado pela empresa “Robonex-sport”, tendo em vista a construção, colocação em órbita e operação do satélite angolano.

O projecto permitiria, já se dizia na altura, a disponibilização de serviços e o acesso internacional, de suporte e expansão da Internet de banda larga, de transmissão para os operadores de telecomunicações e também a disponibilização para suportar serviços de rede de televisão e de radiodifusão.

Por mera curiosidade refira-se que no mesmo Conselho de Ministros foi feito um reajustamento nos salários da função pública, sendo que – segundo o Governo – a alteração estava em consonância com o Programa Geral do Governo que previa como medida de política salarial o reajustamento dos vencimentos dos funcionários públicos, tendo em vista a reposição do poder de compra dos salários devido à inflação esperada de 10 por cento.

Em Dezembro de 2012, Aristides Safeca anunciara o lançamento para 2015, dizendo que o projecto seria financiado por um sindicato de bancos russos liderado pelo Ruseximbank e VTB.

Na altura foi dito que a construção estava a cargo de um consórcio russo liderado pela RSC, multinacional apresentada como tendo “larga experiência na produção de satélites e foguetões propulsores em programas internacionais como o Soyuz-Apollo”.

“Este Satélite é o primeiro e marca a entrada de Angola numa nova era das telecomunicações, o que pressupõe a condução de um programa espacial que inclua, futuramente, o lançamento de satélites subsequentes,” referiu em 2012 Aristides Safeca, coordenador do projecto.

“O projecto do Angosat vai bem. Está dentro dos prazos estabelecidos e em Setembro de 2016 teremos o satélite pronto e princípios de 2017, o mais tardar no primeiro trimestre, teremos o satélite no ar”, afirmou também Aristides Safeca, referindo que o Executivo estava, no domínio dos telecomunicações, a efectuar a procura e buscas de soluções adequadas para as telecomunicações, não só no meio urbano, mas também no meio rural.

Ao que tudo indica, com o Angosat (2,3,4 etc.) o nosso país deixará de ter 68% da população afectada pela pobreza, ou uma taxa de mortalidade infantil que é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças.

Será também graças ao satélite que não mais se dirá que apenas um quarto da população tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, ou que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Do mesmo modo, com o Angosat não mais se afirmará que a taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino. Ou que 45% das crianças sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Também se acabará com essa realidade de 80% do Produto Interno Bruto ser produzido por estrangeiros; de mais de 90% da riqueza nacional privada ser subtraída do erário público e estar concentrada em menos de 0,5% da população.



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